segunda-feira, 10 de maio de 2010

TESTE DE AVALIAÇÃO SOBRE "MEMORIAL DO CONVENTO"


I
A
Leia o texto com atenção e responda às questões que se seguem.


“Enfim o rei bate na testa, resplandece-lhe a fronte, rodeia-o o nimbo da inspiração, E se aumentássemos para duzentos frades o convento de Mafra, quem diz duzentos, diz quinhentos, diz mil, estou que seria uma acção de não menor grandeza que a basílica que não pode haver. O arquitecto ponderou, Mil frades, quinhentos frades, é muito frade, majestade, acabávamos por ter de fazer uma igreja tão grande como a de Roma, para lá poderem caber todos, Então, quantos, Digamos trezentos, e mesmo assim já vai ser pequena para eles a basílica que desenhei e está a ser construída, com muitos vagares, se me é permitido o reparo, Sejam trezentos, não se discute mais, é esta a minha vontade, Assim se fará, dando vossa majestade as necessárias ordens.
Foram dadas. (…) D. João V levantou-se da sua cadeira, beijou a mão do provincial, humildando o poder da terra ao poder do céu, e quando se tornou a sentar repetiu-se-lhe o halo em redor da cabeça, se este rei não se cautela acaba santo.
Retirou-se rasando vénias João Frederico Ludovice para ir reformar os desenhos, recolheu-se o provincial
[1] à província para ordenar os actos congratulatórios adequados e dar a boa nova, ficou o rei, que está em sua casa, agora esperando que regresse o almoxarife[2] que foi pelos livros da escrituração, e quando ele volta pergunta-lhe, depois de colocados sobre a mesa os enormes in-fólios[3], Então diz-me lá como estamos de deve e haver. O guarda-livros leva a mão ao queixo parecendo que vai entrar em meditação profunda, abre um dos livros como para citar uma decisiva verba, mas emenda ambos os movimentos e contenta-se com dizer, Saiba vossa majestade de que, haver, havemos cada vez menos, e dever, devemos cada vez mais, Já o mês passado me disseste o mesmo, E também o outro mês, e o ano que lá vai, por este andar ainda acabamos por ver o fundo ao saco, majestade, Está longe daqui o fundo dos nossos sacos, um no Brasil, outro na Índia, quando se esgotarem vamos sabê-lo com tão grande atraso que poderemos então dizer, afinal estávamos pobres e não sabíamos, Se vossa majestade me perdoa a o atrevimento, eu ousaria dizer que estamos pobres e sabemos, Mas, graças sejam dadas a Deus, o dinheiro não tem faltado, Pois não, e a minha experiência contabilística lembra-me todos os dias que o pior pobre é aquele a quem o dinheiro não falta, isso se passa em Portugal, que é um saco sem fundo, entra-lhe o dinheiro pela boca e sai-lhe pelo cu, com perdão de vossa majestade, Ah, ah, ah, riu o rei, essa tem muita graça, sim senhor, queres tu dizer na tua que a merda é dinheiro, Não, majestade, é o dinheiro que é merda, e eu estou em muito boa posição para o saber, de cócoras, que é como sempre deve estar quem faz as contas do dinheiro dos outros. Este diálogo é falso, apócrifo[4], calunioso, e também profundamente imoral, não respeita o trono nem o altar, pões um rei e um tesoureiro a falar como arrieiros em taberna, só faltava que os rodeassem inflamâncias de maritornes[5], seria um desbocamento completo, porém, isto que se leu é somente a tradução moderna do português de sempre, posto o que disse o rei, A partir de hoje, passas a receber vencimento dobrado para que te não custe tanto fazer força, Beijo as mãos de vossa majestade, respondeu o guarda-livros.”
José Saramago, Memorial do Convento

1. Indica as características da personalidade do rei presentes neste excerto, exemplificando com elementos textuais.
2. Explica, por palavras tuas, o sentido das expressões sublinhadas no contexto em que estão inseridas:
· “(…) ainda acabamos por ver o fundo ao saco(…)”
· “(…) isso se passa em Portugal, que é um saco sem fundo (..)”
3. A complexidade do estatuto do narrador de Memorial do Convento está bem presente nesta passagem da obra.
3.1. Aponta dois momentos em que o narrador utiliza um tom irónico em relação ao rei.
3.2. Sinaliza as passagens em que o narrador, assumindo a sua omnisciência, reflecte sobre a sua própria escrita.

4. Como sabes, o verbo haver, conforme o seu significado, pode empregar-se em todas as pessoas ou apenas na 3ª pessoa do singular.
4.1. Indica em qual das frases o verbo haver está na pessoa errada:
a. O rei entedia que eles haviam de construir um convento maior.
b. A gastar daquele modo, eles haverão de ver o fundo ao saco.
c. Foram muitos os governantes que se houveram com o mesmo problema.
d. O dinheiro não era problema, pois haviam dois sacos aonde ir buscá-lo.
e. Havia já alguns anos que as dívidas iam aumentando.

B
Pela leitura que fizeste de Memorial do Convento, comenta, num texto de sessenta a oitenta palavras, a relação amorosa de Baltasar e Blimunda por oposição à que o rei e a rainha mantêm.
II
A. Lê o texto que se segue e selecciona a alínea correcta para cada questão:
“Este livro reúne alguns dos textos que mensalmente e ao longo dos últimos anos fui publicando (…). A estranheza do título justifica uma explicação, para que ele não passe como um mero exercício de estilo.
Quando era pequeno — muito pequeno, talvez oito ou dez anos — lembro-me de estar deitado na banheira, em casa dos meus pais, a ler um livro de quadradinhos. Era uma aventura do David Crockett, o desbravador do Kentucky e do Tenessee, que haveria de morrer na mítica batalha do Forte Álamo. Nessa história, o David Crockett era emboscado por um grupo de índios, levava com um machado na cabeça, ficava inconsciente e era levado prisioneiro para o acampamento índio. Aí, dentro de uma tenda, dia e noite, molhando-lhe a testa com água, havia uma índia muito bonita — uma “squaw”, na literatura do Far-West — que cuidava dele, dia e noite, molhando-lhe a testa com água, tratando das suas feridas e vigiando o seu coma. E, a certa altura, ela murmurava para o seu prostrado e inconsciente guerreiro: “não te deixarei morrer, David Crockett!”
Não sei porquê, esta frase e esta cena viajaram comigo para sempre, quase obsessivamente. Durante muito tempo, preservei-as à luz do seu significado mais óbvio: eu era o David Crockett, que queria correr mundo e riscos, viver aventuras e desvendar Tenessees. Iria, fatalmente, sofrer, levar pancada e ficar, por vezes inconsciente. Mas ao meu lado haveria sempre uma índia, que vigiaria o meu sono e cuidaria das minhas feridas, que me passaria a mão pela testa quando eu estivesse adormecido e me diria: “não te deixarei morrer, David Crockett!” E, não só por isso, eu sobreviria a todos os combates. Banal, elementar.
Porém, mais tarde, comecei a compreender mais coisas sobre as emboscadas, os combates e o comportamento das índias perante os guerreiros inconscientes. Foi aí que percebi que toda a minha interpretação daquela cena estava errada: o David Crockett representava sim a minha infância, a minha crença de criança numa vida de aventuras, de descobertas, de riscos e de encontros. Mas mais, muito mais do que isso: uma espécie de pureza inicial, um excesso de sentimentos e de sensibilidade, a ingenuidade e a fé, a hipótese fantástica da felicidade para sempre. (…)”
Miguel Sousa Tavares, Não Te Deixarei Morrer, David Crockett

Selecciona a opção correcta para cada questão.

1. Com a afirmação “esta frase e esta cena viajaram comigo para sempre”, o autor quer dizer que
a. se sentia marcado para toda a vida por aquela frase e aquela cena.
b. transportava consigo, sempre que viajava, um livro de David Crockett.
c. se lembrava daquela frase e daquela cena sempre que viajava.
d. tinha aquela frase gravada na pasta que usava em viagem.

2. Na frase iniciada por “Foi aí que” , o autor assinala o momento em que
a. leu a história aventurosa e acidentada do desbravador David Crockett.
b. tomou consciência de que David Crockett era o símbolo da sua infância.
c. sentiu a necessidade de preservar na memória o herói David Crockett.
d. julgou que era David Crockett, o mítico combatente de Forte Álamo.

3. A perífrase verbal em “e ao longo dos últimos anos fui publicando” traduz uma acção
a. momentânea, no passado.
b. repetida, do passado ao presente.
c. apenas começada, no passado.
d. posta em prática, no momento.

4. A locução “para que” permite estabelecer na frase uma relação de
a. causalidade.
b. completamento.
c. finalidade.
d. retoma.

5. O uso do travessão duplo justifica-se pela necessidade de
a. destacar uma explicitação.
b. registar falas em discurso directo.
c. marcar alteração de interlocutor.
d. sinalizar uma conclusão.

6. O uso repetido do nome “David Crockett”
a. constitui um mecanismo de coesão lexical.
b. assegura a progressão temática.
c. constitui um processo retórico.
d. assegura a coesão interfrásica do texto.

7. Assinala se as afirmações são verdadeiras (V) ou falsas (F):
a. O segmento textual “Este livro reúne alguns dos textos que mensalmente e ao longo dos últimos anos fui publicando” constitui um acto ilocutório directivo.
b. O constituinte “inconsciente” em “Nessa história, o David Crockett (…) ficava inconsciente” desempenha, na frase, a função de predicativo do sujeito.
c. Os vocábulos “batalha” e “combates” mantêm entre si uma relação de antonímia.
d. O antecedente do pronome relativo “que” é “uma índia muito bonita” .
e. Em “molhando-lhe a testa com água, tratando das suas feridas e vigiando o seu coma”, as formas verbais “molhando”, “tratando” e “vigiando” traduzem o modo continuado como a índia cuidava de David Crockett.
f. Na frase “ela murmurava para o seu prostrado e inconsciente guerreiro” ,os adjectivos têm um valor restritivo.
g. Em “não te deixarei morrer, David Crockett” ,“te” e “David Crockett” são referências deícticas pessoais.
h. Na frase “preservei-as à luz do seu significado mais óbvio” , o referente de “as” é “esta frase e esta cena” .
i. A frase “que vigiaria o meu sono” é subordinada relativa restritiva.
j. O conector “Porém” introduz uma relação de oposição entre o que anteriormente foi dito e a ideia exposta posteriormente.

III
Selecciona apenas uma hipótese e constrói um texto coerente entre cento e cinquenta e duzentas palavras:
a. Reflecte sobre os malefícios da televisão e da vida sedentária.
b. Elabora um texto onde tenhas em conta as alterações climáticas, o aquecimento global, as tuas preocupações ambientais e o que fazes para melhorar o mundo.
c. Considera, no romance Memorial do Convento, de José Saramago, a relação entre o título e o conteúdo e refere a importância que o aspecto mencionado assume no universo da obra.



Notas de rodapé:
[1] Superior religioso de uma província eclesiástica
[2] Tesoureiro da casa real.
[3] Livro ou volume com formato de folha de impressão dobrada ao meio.
[4] Não autêntico
[5] “Maritornes”- personagem de D. Quixote, criada asturiana numa hospedaria, bem feita de corpo, mas feia e ordinária; “inflamâncias”- exaltações, entusiasmos.
BOM TRABALHO!!!!
A professora: Lucinda Cunha

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Cartoons que podem ser utilizados numa oficina de escrita

TEMA: infidelidade
TEMA: inconvenientes do progresso

TEMA: corrupçãpo

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Oficina de escrita

Num texto bem estruturado, escreve um texto sobre as alterações climáticas, o aquecimento global e a destruição do nosso planeta.
Para aperfeiçoares a escrita só existe uma solução: escrever, escrever, escrever. Se quiseres, entrega ao teu professor de Português para que ele corrija ou teu texto, ou envia para o meu endereço electrónico
que terei todo o prazer em fazê-lo.

Correcção ortográfica

Certamente já conhecerás esta carta disparatada que a seguir se transcreve. Um bom exercício será corrigir os erros nela presentes. Assim divertes-te e trabalhas ao mesmo tempo!
Uma outra opção será trabalhá-la quando se der a carta e a sua estrutura. Aqui está:


Carta de uma mãe Alentejana para um filho que está na Bósnia
Mê querido filho:
Escrevo-te algumas linhas apenas pra saberes que tou viva. Estou-te a escrever devagar, pois sei que nã sabes lêr depressa.Nã vás reconhecer a nossa casa quando voltares, pois nós mudamo-nos. Temos uma máquina de lavar rôpa, mas nã trabalha muito bem, a semana passada pus lá catorze camisas, puxei a corrente e nunca mais as vi.Acerca do tê pai, ele arranjou um bom emprego, tem 1500 homens debaixo dele, pois agora está cortando a relva do cemitério.A magana da tua irmã Maria teve bebé esta semana, mas sabes, eu nã consegui saber sé menino ou menina, portanto nã sei sês tio ó tia.A tê ti Patricio afogou-se a semana passada num depósito de vinho, lá na adega cuprativa, alguns compadris tentaram salvá-lo mas sabes, ele lutou bravamente contra eles. O corpo foi cremado mas levou três dias pra apagar o incêndio.Na quinta-feira fui ao médico e o tê pai foi comigo. O médico pôs-me um pequeno tubo na boca e disse-me pra nã falari durante dez minutos. Atão nã sabes que o tê pai ofereceu-se logo pra comprar o tubo ao médico.Esta semana só chuveu duas vezes. Na primeira vez chuveu durante três dias e na segunda durante quatro dias. Na segunda fêra teve tanto vento que uma das galinhas pôs o mesmo ovo quatro vezes.Recebemos uma carta do cangalhero que informava que se o último pagamento do enterro da tua avó nã fôr fêto no prazo de sete dias, devolvem-na.Olha mê filho cuida-te.Nã te esqueças de beber muito lête todas as nôtes, antes de interrares os cornos na fronha.Um BêjoJaquina do Chaparro
PS: Era pra te mandar 5 contos, mas já tinha fechado o envelope, nã tos mandei. Fica pra próxima.

Ficha de trabalho sobre o filme "A Odisseia" (com Armand Assante como protagonista)


FICHA DE TRABALHO SOBRE O FILME “A ODISSEIA”



Lê as questões com atenção e assinala a resposta correcta:
(as respostas estão destacadas)


1. Ulisses era rei de
Tróia
Ítaca
Creta

2. Quantos anos durou a guerra de Tróia?
8
10
12

3. Que deus castigou Ulisses pela sua arrogância?
Ares
Zeus
Poseidon

4. Que tipo de monstro encontraram Ulisses e os seus homens no regresso a casa?
Ciclope
Medusa
Gigante

5. Como se chamava?
Polifemo
Cila
Caribdis

6. O que é que os homens e Ulisses comeram na sua gruta?
mel
pão
queijo

7. Quantos homens matou?
1
2
3

8. O que é que Eolo meteu no saco de Ulisses?
fogo
água
vento

9. Quem era Penélope?
a mãe de Ulisses
uma feiticeira
a mulher de Ulisses

10. Que comeu Ulisses para não ser enfeitiçado pela Circe?
frutos silvestres
erva
mel

11. Quantos anos ficou Ulisses com a Circe?
5
4
3

12. Como morreu a mãe de Ulisses?
De um ataque
suicídio
homicídio

13. Porque foi Ulisses ao reino dos mortos?
Para ver a mãe
Para ficar rico
Para saber o caminho de casa

14. Que eram Sila e Caribdis?
Dois monstros
Duas bruxas
Duas deusas

15. Quem foi à procura de Ulisses?
Telémaco
Eurímaco
Euríloo

16. Porque é que Hermes foi falar com Calipso?
Era apaixonado por Calipso
Foi cumprir uma ordem de Zeus
Estava de passagem

17. Como é que Ulisses saiu da ilha de Calipso?
A nado
Foi salvo por um navio
Construiu uma jangada

18. Quem contou aos pretendentes do trono que Penélope nunca iria terminar a tapeçaria?
Eurímaco
Eumeu
Melante

19. Como é que Ulisses consegue entrar em sua casa sem ser reconhecido?
A deusa disfarça-o de mendigo
Esconde-se e entra de noite
Cobre-se para não o reconhecerem

20. Quantos anos esteve Ulisses sem ver a sua casa?
10
15
20


BOM TRABALHO!!!
Lucinda Cunha

Teste sobre Os Maias, 11º ano

Os testes do Secundário seguem a estrutura dos Exames Nacionais:
I
A

Lê atentamente o texto que se segue.

“Vilaça, sem óculos, um pouco arrepiado, passava a ponta da toalha molhada pelo pescoço, por trás da orelha, e ia dizendo:
− Então o nosso Carlinhos não gosta de esperar, hem? Já se sabe, é ele quem governa… Mimos e mais mimos, naturalmente…
Mas o Teixeira, muito grave, muito sério, desiludiu o Sr. administrador. Mimos e mais mimos, dizia Sua Senhoria? Coitadinho dele, que tinha sido educado com uma vara de ferro! Se ele fosse a contar ao Sr. Vilaça! Não tinha a criança cinco anos já dormia num quarto só, sem lamparina; e todas as manhãs, zás, para dentro de uma tina de água fria, às vezes a gear lá fora… E outras barbaridades. Se não soubesse a grande paixão do avô pela criança, havia de se dizer que a queria morta. Deus lhe perdoe, ele, Teixeira, chegara a pensá-lo… Mas não, parece que era sistema inglês! Deixava-o correr, cair, trepar às árvores, molhar-se, apanhar soalheiras, como um filho de caseiro. E depois o rigor com as comidas! Só a certas horas e de certas coisas… e às vezes a criancinha com os olhos abertos, a aguar! Muita, muita dureza!
E o Teixeira acrescentou:
− Enfim, era a vontade de Deus, saiu forte. Mas que nós aprovássemos a educação que tem levado, isso nunca aprovámos, nem eu, nem a Gertrudes.
Olhou outra vez o relógio, preso por uma fita negra sobre o colete branco, deu alguns passos lentos pelo quarto: depois, tomando de sobre a cama a sobrecasaca do procurador, foi-lhe passando a escova pela gola, de leve e por amabilidade, enquanto dizia, junto ao toucador onde o Vilaça acamava as duas longas repas sobre a calva:
− Sabe Vossa Senhoria, apenas veio o mestre inglês, o que lhe ensinou? A remar! A remar, Sr. Vilaça, como um barqueiro! Sem contar o trapézio, e as habilidades de palhaço; eu nisso nem gosto de falar… Que eu sou o primeiro a dizê-lo: o Brown é boa pessoa, calado, asseado, excelente músico. Mas é o que eu tenho repetido à Gertrudes: pode ser muito bom para inglês, mas não é para ensinar um fidalgo português… Não é. Vá Vossa Senhoria falar a esse respeito com a Sr.ª D. Ana Silveira…
Bateram de manso à porta, o Teixeira emudeceu. Um escudeiro entrou, fez sinal ao mordomo, tirou-lhe do braço respeitosamente a sobrecasaca, e ficou com ela junto do toucador, onde o Vilaça, vermelho e apressado, lutava ainda com as repas rebeldes.
O Teixeira, da porta, disse com o relógio na mão:
− É o jantar. Tem Vossa Senhoria dois minutos, Sr. Vilaça.
E o administrador daí a um momento abalava também, abotoando ainda o casaco pelas escadas.
Os senhores já estavam todos na sala. Junto do fogão, onde as achas consumidas morriam na cinza branca, o Brown percorria o Times. Carlos, a cavalo nos joelhos do avô, contava-lhe uma grande história de rapazes e de bulhas; e ao pé o bom abade Custódio, com o lenço de rapé esquecido nas mãos, escutava, de boca aberta, num riso paternal e terno.
− Olhe quem ali vem abade – disse-lhe Afonso.
O abade voltou-se, e deu uma grande palmada na coxa:
− Esta é nova! Então é o nosso Vilaça! E não tinham dito nada! Venham de lá esses ossos, homem!...
Carlos pulava nos joelhos do avô, muito divertido com aqueles longos abraços que juntavam as duas cabeças dos velhos – uma com as repas achatadas sobre a calva, outra com uma grande coroa aberta numa mata de cabelo branco.”
Eça de Queirós, Os Maias



1. Situa a acção no espaço e refere o motivo que levou Afonso da Maia a instalar-se naquele local.
2. Explicita a expressividade das comparações usadas pelo Teixeira, quando este se refere à educação de Carlos.
3. “Vá Vossa Senhoria falar a esse respeito com a Sr.ª D. Ana Silveira…”. Refere em que medida a educação de Carlos e a de Eusebiozinho diferem e como é que essas diferenças vão condicionar o futuro de ambos.
4. Explica a expressividade dos diminutivos sublinhados e dá exemplos de um uso diferenciado, também nesta obra.
B

“O Realismo surgiu para combater o Romantismo.”
Num texto entre 60 a 100 palavras, comenta a afirmação transcrita, num texto bem estruturado.

II
Lê atentamente o seguinte texto:


A Biblioteca Nacional comprou em Junho um conjunto de manuscritos de Eça de Queirós desaparecidos há mais de 100 anos e que se julgavam perdidos. A compra foi em tudo especial: por causa da surpresa, mas também do dinheiro investido.
Os documentos são os manuscritos do livro A Correspondência de Fradique Mendes, no qual Eça de Queirós estava a trabalhar quando morreu (em 1900) (…).
O conjunto inclui mais de 300 páginas de provas de tipografia, recortes de jornal e manuscritos (a maioria), e já foi limpo e reparado.
A Biblioteca Nacional (BN) comprou-o num leilão por 50 mil euros, quase metade do orçamento anual para compras de obras raras. (…)
Este é talvez o último manuscrito importante de Eça que ainda estava em mãos privadas (pertencia à biblioteca de Salema Garção) e surgiu – para total surpresa dos especialistas – depois de 30 anos de um deserto quase total.
Desde 1975, quando a BN comprou o espólio de Eça (14 caixas), o Estado adquiriu apenas algumas páginas e pequenos fragmentos de pequena importância. (…) Especialistas de “várias sensibilidades” confirmaram a autenticidade e a importância dos manuscritos, perante isso, [o director da BN] sentiu que tinha de ir “o mais alto possível, quem sabe além do possível e imaginário”. (…)
Carlos Fradique Mendes, a personagem do livro, “apresentou-se ao público português em Agosto de 1869 com quatro poemas ditos ‘satânicos’, que fizeram sensação”, diz Irene Fialho, da equipa para a edição crítica das obras de Eça. As poesias eram uma criação colectiva de Eça, Antero de Quental e Batalha Reis. Eça, porém, deu várias vidas a Fradique e trabalhou a personagem ao longo de 20 anos e até morrer.
Logo em 1870, Fradique surge em o Mistério da Estrada de Sintra (que Eça publicou com Ramalho Ortigão) e aí já não é só um poeta mas um “homem verdadeiramente original, superior, que toca violoncelo na perfeição”, diz Fialho.
E não se ficou por aqui. Quinze anos depois, com mais “biografia e intelecto”, Fradique surge de novo, agora através de um narrador anónimo que primeiro o achou pedante e depois ficou fascinado. E só depois Eça começa então a montar os manuscritos que resultaram no livro A Correspondência de Fradique Mendes – publicado já depois da sua morte – e que são os que a Biblioteca comprou. (…)
A personagem de Fradique, considerada “um marco de modernidade literária”, tem alguns traços em comum com Eça, um perfeccionista. “Enviesadamente (em registo ficcional e paródico) há em Fradique alguma coisa do Eça obcecado pela perfeição”, diz Carlos Reis. Um Eça que reescreveu vários dos seus livros.” (…)
Bárbara Reis, “Cadernos Público na Escola”, in Público, 10 de Outubro de 2004 (texto com supressões)

1. Identifica a alínea correcta:

1.1. A aquisição dos manuscritos do livro A Correspondência de Fradique Mendes

a) foi uma opção de aquisição banal para a Biblioteca Nacional.
b) constituiu um acontecimento esperado para os especialistas.
c) representou um esforço económico inédito para a Biblioteca Nacional.

1.2. Os manuscritos mais importantes de Eça

a) encontram-se distribuídos entre o estado e privados.
b) encontram-se todos na posse do estado.
c) encontram-se dispersos por vários proprietários, portugueses e estrangeiros.

1.3. Inicialmente uma personagem de criação colectiva, a personagem Fradique Mendes

a) passou a personagem frequente de grande parte da ficção queirosiana.
b) apresenta traços comuns, em registo romântico, com Eça de Queirós.
c) foi longa e laboriosamente trabalhada por Eça de Queirós.

1.4. De acordo com Carlos Reis,

a) a semelhança entre Eça e Fradique é obvia, pese embora o registo parodístico.
b) enquanto escritor, Eça tinha um nível de auto-exigência absolutamente mediano.
c) a relação entre Fradique e Eça é questionável.


2. Diz se as afirmações são verdadeiras (V) ou falsas (F):

a. A deixis pessoal é assinalada através dos pronomes pessoais e possessivos e da flexão verbal.
b. Os deícticos temporais estão presentes através dos tempos verbais e de locuções adverbiais temporais.
c. A deixis discursiva recorre a advérbios e locuções adverbiais de lugar e aos demonstrativos.
d. Entende-se por deixis o fenómeno de referenciação que permite estabelecer a relação formal de enunciação de uma mensagem por um sujeito, num espaço e num tempo determinado.
e. A catáfora é a expressão referencialmente não autónoma que retoma, total ou parcialmente, o valor referencial do antecedente.


3. Responde às questões.

3.1. Os verbos impessoais não possuem sujeito, sendo apenas usados na terceira pessoa do singular. Assinala as frases que achares que estão incorrectas:

a) Na conferência, haviam vários participantes vindos de África.
b) Houveram momentos dramáticos durante a operação de salvamento.
c) Fazem dois meses que ele partiu.
d) Penso que devem haver mais doentes infectados.

3.2. Assinala a frase que está mal construída:
a) Faz frio.
b) Devem haver mais pães na cozinha.
c) Havia motivos para ele estar zangado.
d) Faz hoje uma semana que regressei do Brasil.



3.3. Assinala a alínea em que há um erro:
a) Eles haveriam de recordar aquela conversa uns tempos mais tarde.
b) Ao som da música, houve pessoas que dançaram toda a noite.
c) Eles defendiam que deviam haver leis mais duras contra a corrupção.
d) Era melhor afastarem-se, pois podia haver complicações.

3.4. Assinala a alínea em que há um erro de concordância verbal:
a) Fui eu que pediu para ser recebido pelo Capitão.
b) A maior parte das pessoas vivia na miséria.
c) Eram quase dez horas da noite.
d) Tu és quem representa todos nós.

III
Comenta o cartoon que se segue num texto entre 160 e 200 palavras.

Estou de volta!!!!!


Jovens, lamento ter andado afastada.

Já estou de volta e prometo muito material novo em breve par o 3º ciclo e Secundário.
Beijinhos!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!